A quarentena causada pelo coronavírus levou as pessoas a consumirem entretenimento. Séries e filmes oferecidos por serviços de streaming ajudaram muitos a preencher o tempo. Além deles, a leitura se tornou um grande aliado para quem deseja desfrutar uma boa história, aprender algo prático e adquirir conhecimento sobre o mundo. Mas em tempos de tanta incerteza este hábito é mais do que um simples entretenimento. É também uma forma de se conhecer.

Ócio e o processo de autoconhecimento estão ligados. É necessário tempo e “cabeça fresca” para pensar com clareza. O que seria quase impossível com a rotina estressante de trabalho, faculdade e filhos. Ócio é um termo mal entendido. Para o filósofo grego Platão, este é a base para a filosofia, conectado com a verdade e a liberdade, pois só quem tem tempo livre pode se dedicar ao pensar. Para os gregos, ócio significava se dedicar as ideias, à espiritualidade e à apreciação da verdade e da beleza.

A literatura consegue possibilitar o pensar de uma forma profunda e autorreflexiva. No primeiro momento, o leitor esquece das suas próprias preocupações para focar nos personagens e na narrativa. No desenrolar da trama, nossas emoções se voltam para o personagem, desenvolvendo empatia e se reconhecendo nele. Esse ato de se reconhecer no outro faz com que o leitor não se sinta tão sozinho no mundo. Em uma sociedade na qual a aparente felicidade é exacerbada, e as relações sociais mais frágeis, a chamada modernidade líquida de Zygmunt Bauman, a literatura entra como um ponto de encontro com o humano. Ponto de encontro, pois a literatura é uma expressão do ser humano. Nela, o campo é livre para se expressar, não necessariamente um guia moral. O autoconhecimento é também se ver como um ser ambíguo, capaz de bondade e maldade. Apesar de esse tema ser comentado por blogueiras em redes sociais, ela é sempre voltada para a áurea da positividade. A franqueza das obras literárias, principalmente as clássicas, promovem um discurso mais profundo sobre isso.

Alguns escritores apresentam uma escrita mais intimista, mais voltada para a autorreflexão. As obras de Clarice Lispector mostram personagens comuns, e que por algum evento aparentemente banal, remoem toda a sua existência. O uso do fluxo de consciência torna a relação autor-leitor mais próxima, quase íntima. Os livros considerados clássicos, além de trazerem o contexto em que foi feito ,precisam ser atemporais. Autores como Shakespeare e Dostoiévski são lidos não para descobrir o final, mas sim para descobrir a si mesmo. Obras de escritores como estes tratam sobre temas de relevância atuais. Questões existenciais e a busca pela verdade são temas relevantes desde a Grécia Antiga.

"Conhece-te a ti mesmo", aforismo atribuído a Sócrates e que faz parte da frase "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses", traz a essência desse processo. Somente com o autoconhecimento que é possível enxergar as limitações, os desejos, os pontos fortes e negativos. Tudo isso visto por uma ótica franca e sensata, algo que a literatura pode oferecer.

 

A leitura de obras literárias, principalmente as clássicas, trazem reflexões sobre o ser humano.

Texto por Vitória Costa, estudante do Curso de Jornalismo da FaC.

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